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Mostrando postagens de outubro, 2020

Livro

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Livro-me de ti, escória de lembranças mal vividas E livro a quem de mim aspirou alvíssaras em troca de ilusões Livro do dever da recíproca aqueles que amparei, pois falhei mais do que acertei Livro do futuro as vivências do porvir, por constatar que o que vivi já me basta Livro-me da minha vida, à parte esquálido vivente, ainda persisto de pé, à espera do nada E cerro o livro da minha vida, escrito por mim, mas lido por ninguém.

Um dia a mais ou menos

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Um dia a mais ou menos Jorge era um suburbano sonhador. Por entre as lacunas da labuta, tecia em sonhos, desejos que o tempo se encarregava de esmaecer. E nas noites curtas como o cobertor de suas finanças, os sonhos que tinha acordado não davam as caras. Às vezes fuçava gavetas e olhando fotos antigas, via a si como um conhecido de outrora e os amigos e familiares, como sombras ou fantasmas de um filme que já vira, mas pouco se lembrava. De seus lábios crispados pela sempiterna angústia, a tosse e os bocejos eram mais presentes que a fala, dando a si um ar sorumbático que contrastava com a passiva ingenuidade de seu íntimo. O tempo gasto em divagações, de pé nos coletivos que o levavam e traziam do trabalho seis vezes por semana, a atenção difusa, quase automática que dava no acabamento dos quatrocentos e oitenta rodapés que produzia e encaixotava por dia, eram um lapso de sua percepção de existência, que vez ou outra, era interrompido pela dor de bolhas estourando em seus dedos. A ca...