Tenho me sentido assim. O vazio não deveria pesar. Deveria ser apenas um espaço sem absolutamente nada! Mas, ele está me consumindo de desesperança. Vejo o dia amanhecer, entardecer e a noite me amedronta. É um vazio tão cheio que me ensurdece.
E lá estava eu novamente... Outra madrugada ao relento, o corpo sonado estendido na rede, mas os sentidos aguçadíssimos, ávidos pelos sutis estímulos proporcionados pela penumbra da lua minguante. O quase nada a se ouvir ao redor disputava a atenção com o rebuliço que ribombava em minha mente, tornando a experiência de estar desperto em uma agonia sensorial digna de um surto esquizofrênico. Um pássaro, talvez uma coruja, piava num compasso arrastado e repetitivo, dando a impressão de dizer, de forma zombeteira: "durma, duuurmaaa". Meus pensamentos, à revelia de minha intenção, rogavam imprecações à ave agourenta, como que sua expressão natural fosse na verdade, uma provocação a este ser insone. Diálogos internos se sucediam em imagens mentais aceleradas, evocando longínquos episódios da vida, invocando gente que nem mais existia, à revelia de minha vontade, que era apenas não enxergar mais nada enquanto os olhos estivessem fechados. "Que droga" - pensei, vocalizando...
Livro-me de ti, escória de lembranças mal vividas E livro a quem de mim aspirou alvíssaras em troca de ilusões Livro do dever da recíproca aqueles que amparei, pois falhei mais do que acertei Livro do futuro as vivências do porvir, por constatar que o que vivi já me basta Livro-me da minha vida, à parte esquálido vivente, ainda persisto de pé, à espera do nada E cerro o livro da minha vida, escrito por mim, mas lido por ninguém.
Enquanto caminhava, ocioso a tentar me libertar do jugo da racionalidade, vi-me absorto em sentimentos muito mais que em pensamentos. Sentia o sol fustigante a dourar-me o dorso, sons de aves e insetos pondo meus tímpanos a vibrar, o vento, qual um suspiro etéreo a acariciar minha tez, o suor a singrar minha face em micro-rios que a quem observasse, poderia confundir com lágrimas, os pés descalços a oprimir a relva, roçando ervas daninhas à medida que as foices de meus artelhos se moviam adiante. O silêncio que não havia na natureza era abundante em meu íntimo e nessa sinfonia átona, mais imponente que o maciço pétreo a obstruir o horizonte, urgia a compreensão do que me movia na direção de um qualquer lugar chamado "encontrar-me". Com o mar sereno interior a me toldar a percepção da confusa cacofonia do arrabalde distante, o toque de suaves dedos em meu ombro despertou-me com a sutileza de uma hecatombe. Era você, que logo atrás, fazia-me vigília. Encontrei-me em ti e tudo ...
Sou sua fã! É adorável lê-lo!
ResponderExcluirTenho me sentido assim. O vazio não deveria pesar. Deveria ser apenas um espaço sem absolutamente nada!
ResponderExcluirMas, ele está me consumindo de desesperança. Vejo o dia amanhecer, entardecer e a noite me amedronta. É um vazio tão cheio que me ensurdece.