Tenho me sentido assim. O vazio não deveria pesar. Deveria ser apenas um espaço sem absolutamente nada! Mas, ele está me consumindo de desesperança. Vejo o dia amanhecer, entardecer e a noite me amedronta. É um vazio tão cheio que me ensurdece.
Não foi o despertador, nem a tênue claridade da tenra manhã, tampouco o arrulhar do alvorecer das aves do arrabalde que me acordaram às seis horas da manhã neste domingo. O retorno ao ânimo vivente se dera como que por uma espécie de obrigação cotidiana, uma imposição da repetição dos dias, algo próprio daquilo que é fatídico, involuntário, compulsório e premente. A rotina sucederia o torpor que se esvaía à medida em que os raios de sol invadiam o quarto pelas frestas da janela de madeira empenada: necessidades fisiológicas, asseio, desjejum, comprimidos, estupefaciência psicotrópica, prostração, diálogos internos e o embate diário entre a imposição de ressignificar a existência ante o acachapante e irresistível sentimento de desesperança e fatalismo. Uma estranha sensação de despersonalização me afligia, dando a nítida impressão de que mente e corpo não se fundiam em mim, mas eram entidades independentes, que numa simbiose estranha, possuíam arbítrio à revelia de minha vontade. Estáva...
Que madrugada de terça-feira gorda foi aquela?! Na verdade, continuava sendo, pois para os demais foliões que ainda persistiam no frenesi hedonista, os festejos de Momo só se encerrariam ao último percutir da baqueta no bumbo ou então na exaustão definitiva de seus corpos fantasiados, pintados, semidesnudos e cintilantes de glitter e suor. Não era este o meu caso. Já eram quase três da manhã e às seis eu pegaria no batente, portanto pus-me no rumo de casa, certo que uma ducha e algumas horas de sono pudessem despertar em meu íntimo a motivação de encarar um plantão que duraria doze voltas completas no relógio. Nas ruas, a fauna festiva pulava atrás dos carros de som, urrando em uníssono o bordão próprio dos estertores carnavalescos que atravessava eras, sem contudo perder seu significado de fim de festa: "é hoje só, é hoje só..." Subitamente, duas delicadas, porém vigorosas mãos me seguraram os quadris por trás, empurrando-me à frente num irresistível impulso, fazendo com que...
O silêncio ao redor contrastava com o burburinho incessante em minha mente. E na solidão própria dos amaldiçoados com a eterna vigília, o que faltava em vivências, sobrava em devaneios: pessoas, situações, histórias, sucessos, fracassos, arrependimentos, promessas não cumpridas, indo e vindo em memórias do que já aconteceu, nunca houve e o que poderia ter sido. Contemplar a escuridão ao relento da vastidão do descampado me assustava, não na perspectiva de que algo pudesse me acontecer, mas justamente o oposto: que o vazio atro e inerte persistisse, tornando em limbo uma realidade outrora plena de cores, sons, presenças e interações. A relva orvalhada sob meus pés descalços garantia que o torpor não sequestrasse de vez minha consciência e na busca de inspiração, tornei os olhos ao firmamento, onde nuvens se moviam ao sabor dos alísios, encobrindo e descortinando uma miríade de estrelas errantes. Prostrei-me ao solo, em decúbito, admirando o embate entre nuvens e estrelas pela primazia n...
Sou sua fã! É adorável lê-lo!
ResponderExcluirTenho me sentido assim. O vazio não deveria pesar. Deveria ser apenas um espaço sem absolutamente nada!
ResponderExcluirMas, ele está me consumindo de desesperança. Vejo o dia amanhecer, entardecer e a noite me amedronta. É um vazio tão cheio que me ensurdece.