Alteio

Num ímpeto determinado, ousou sair da barraca, enquanto os primeiros lampejos da aurora iluminavam o dourado esmaecido da vegetação da cordilheira.
Ainda que os alísios gélidos da montanhas teimassem em enregelar seu corpo combalido pela noite insone, prostrado sobre o chão forrado de jornais e mantas de seu iglu artificial, a paisagem que se descortinava era um estímulo e tanto para reacender o fogareiro e requentar o atro líquido que amornaria suas entranhas e despejaria em seu sangue a preciosa cafeína.
Aos poucos, o hálito solar dissipava a espessa neblina, desafiando a quão longe os olhos poderiam divisar.
À frente, o abismo rochoso transmutava muito abaixo em densas florestas, que se espalhavam densamente por léguas, para então entregar o espaço a pastos, vilas e fazendas. 
Mais além, uma extensa represa e no horizonte oposto, outra cordilheira, encimada por nuvens que lhe encobriam os cumes.
Um errante cachorro do mato o observava de longe, com as orelhas eretas, confuso entre a curiosidade e o medo que aquela efígie humana lhe inspirava, profanando seu habitat.
O animal afastou-se apressado, farejando os líquens, certamente na caça a algum preá fortuito, abandonando o montanhista absorto em sua contemplação, tendo sua sombra como única companhia.
Quatro dias haviam se passado nessa investida pelos maciços da Mantiqueira, porém a dinâmica da natureza sem relógios, calendários, telefones, TVs e outras pessoas, gerava a impressão de que pertencia àquele lugar e que a civilização era lembrança a qual estranhamente, nunca havia vivido.
A existência havia preenchido seus dias com parentes que já haviam jazido, amigos do qual já não tinha mais notícias, paixões e amores que vieram e se foram e colegas cuja convivência era tão significativa quanto suas ausências.
O que deixara para trás era um habitáculo de alvenaria, um ofício que o sustentava tanto quanto o oprimia, distrações cotidianas que o despersonalizavam para adequá-lo a um todo que lhe consumia e nada mais.
Pôs-se ereto, calçou as botas, ajeitou o gorro, afivelou a mochila às costas e seguiu para mais uma incursão solitária, evitando as trilhas, prescrutando o inexplorado para quem sabe, alimentar os sonhos das gélidas noites com esperança, em vez do remorso de uma vida desperdiçada.

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