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Onírico promenade

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O silêncio ao redor contrastava com o burburinho incessante em minha mente. E na solidão própria dos amaldiçoados com a eterna vigília, o que faltava em vivências, sobrava em devaneios: pessoas, situações, histórias, sucessos, fracassos, arrependimentos, promessas não cumpridas, indo e vindo em memórias do que já aconteceu, nunca houve e o que poderia ter sido. Contemplar a escuridão ao relento da vastidão do descampado me assustava, não na perspectiva de que algo pudesse me acontecer, mas justamente o oposto: que o vazio atro e inerte persistisse, tornando em limbo uma realidade outrora plena de cores, sons, presenças e interações. A relva orvalhada sob meus pés descalços garantia que o torpor não sequestrasse de vez minha consciência e na busca de inspiração, tornei os olhos ao firmamento, onde nuvens se moviam ao sabor dos alísios, encobrindo e descortinando uma miríade de estrelas errantes. Prostrei-me ao solo, em decúbito, admirando o embate entre nuvens e estrelas pela primazia n...

Pra tudo acabar na quarta-feira

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Que madrugada de terça-feira gorda foi aquela?! Na verdade, continuava sendo, pois para os demais foliões que ainda persistiam no frenesi hedonista, os festejos de Momo só se encerrariam ao último percutir da baqueta no bumbo ou então na exaustão definitiva de seus corpos fantasiados, pintados, semidesnudos e cintilantes de glitter e suor. Não era este o meu caso. Já eram quase três da manhã e às seis eu pegaria no batente, portanto pus-me no rumo de casa, certo que uma ducha e algumas horas de sono pudessem despertar em meu íntimo a motivação de encarar um plantão que duraria doze voltas completas no relógio. Nas ruas, a fauna festiva pulava atrás dos carros de som, urrando em uníssono o bordão próprio dos estertores carnavalescos que atravessava eras, sem contudo perder seu significado de fim de festa: "é hoje só, é hoje só..." Subitamente, duas delicadas, porém vigorosas mãos me seguraram os quadris por trás, empurrando-me à frente num irresistível impulso, fazendo com que...

Lapso Insone

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E lá estava eu novamente... Outra madrugada ao relento, o corpo sonado estendido na rede, mas os sentidos aguçadíssimos, ávidos pelos sutis estímulos proporcionados pela penumbra da lua minguante. O quase nada a se ouvir ao redor disputava a atenção com o rebuliço que ribombava em minha mente, tornando a experiência de estar desperto em uma agonia sensorial digna de um surto esquizofrênico. Um pássaro, talvez uma coruja, piava num compasso arrastado e repetitivo, dando a impressão de dizer, de forma zombeteira: "durma, duuurmaaa". Meus pensamentos, à revelia de minha intenção, rogavam imprecações à ave agourenta, como que sua expressão natural fosse na verdade, uma provocação a este ser insone. Diálogos internos se sucediam em imagens mentais aceleradas, evocando longínquos episódios da vida, invocando gente que nem mais existia, à revelia de minha vontade, que era apenas não enxergar mais nada enquanto os olhos estivessem fechados. "Que droga" - pensei, vocalizando...

Sobre despedidas e bolinhas de gude

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Joãozinho veio ao mundo sem saber o porquê, em pouco tempo já engatinhava e balbuciava afeto com estridentes monossílabos e quando se deu conta, já ficava em pé e ensaiava corridinhas curtas com a desenvoltura de um potrinho em seu primeiro galope. Alguns meses se passaram, sua curiosidade o movia na direção de seus interesses e tudo era descoberta, encanto e estranhamento, à medida em que seus olhinhos faiscantes, de um verde acinzentado, perscrutavam seu derredor: uma folha de árvore caindo em rodopio até pousar nas plácidas águas do laguinho, as gotas de chuva escorrendo nos vidros da janela da cozinha, o arrulhar das pombas que se aninhavam no forro do telhado sempre que o sino da igreja anunciava as seis da tarde, o cheiro de sabão de coco que o travesseiro exalava, todas as vezes em que sua mãe trocava a roupa de cama...  Mas o clímax dos dias sempre eram as partidas de bolas de gude jogadas com seu priminho Zequinha, onde o objetivo de ambos era conquistar todo espólio de bo...

Emoções Químicas

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Não foi o despertador, nem a tênue claridade da tenra manhã, tampouco o arrulhar do alvorecer das aves do arrabalde que me acordaram às seis horas da manhã neste domingo. O retorno ao ânimo vivente se dera como que por uma espécie de obrigação cotidiana, uma imposição da repetição dos dias, algo próprio daquilo que é fatídico, involuntário, compulsório e premente. A rotina sucederia o torpor que se esvaía à medida em que os raios de sol invadiam o quarto pelas frestas da janela de madeira empenada: necessidades fisiológicas, asseio, desjejum, comprimidos, estupefaciência psicotrópica, prostração, diálogos internos e o embate diário entre a imposição de ressignificar a existência ante o acachapante e irresistível sentimento de desesperança e fatalismo. Uma estranha sensação de despersonalização me afligia, dando a nítida impressão de que mente e corpo não se fundiam em mim, mas eram entidades independentes, que numa simbiose estranha, possuíam arbítrio à revelia de minha vontade. Estáva...

Lágrimas pluviais

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A garoa se fez tempestade enquanto eu amassava as nádegas no banco da parada de ônibus por um quarto de hora, observando as gotículas bruxuleantes ao sabor do vento engrossarem em grossos pingos, para depois percutirem em granizo na cobertura do abrigo, no ritmo de uma bateria de escola de samba acelerada e descompassada.  A ansiedade crônica que me acometia há tempos fazia o coração disparar e por um breve momento, achei que meus batimentos cardíacos competiam com a percussão do granizo pela primazia do ritmo mais descompassado, acelerado e bizarro que fosse possível.  Um ônibus surgiu na esquina, acelerado, com os limpadores ligados num vai e vem desordenado e um dos faróis queimado, sem aparentar que seu condutor tivesse a intenção de fazer a parada, ainda que eu me levantasse parcialmente, acenando timidamente com um dos dedos da mão apontando para cima. O coletivo confirmou minhas expectativas pessimistas, passando direto em alta velocidade e ignorando meu sinal, não sem...

Serenus Finis

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Após um lapso indeterminado, de horas, minutos ou segundos, sabe-se lá, abri os olhos. Uma nesga de muro verde obstruía a visão de um amplo céu carrancudo, pleno de cúmulos, nimbus e estratos, sem espaço ao menos para um azulzinho sequer de firmamento. Meus membros formigavam, enquanto a frialdade do piso cerâmico amortecia a pele de minhas costas nuas, contribuindo para que o entorpecimento desse aos poucos, protagonismo a um claudicante retorno à consciência.  O único som que se ouvia era o ruído surdo e intermitente de motores dos carros que iam e vinham nas ruas ao largo. Pensei em me levantar, mas uma acachapante abulia me mantinha estático, impedindo-me de saber se o que me mantinha cataléptico era só apatia ou algum tipo de paralisia incapacitante. O torpor do recém-despertar deu lugar ao temor do desamparo e se tornou em pavor quando tentei gritar por ajuda mas não me lembrei de nenhum nome e o som que saiu de minha garganta foi um urro gutural e inaudível.  O formiga...

Sonhos juvenis

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Era janeiro de 1986, eu estava alojado no Parque Santos Dumont, em São José dos Campos, junto com outros jovens alunos e alunas do curso de Educação Física, todos belos e malditos, com um passado tenro e um futuro que urgia célere, mas que não nos amedrontava, pois éramos detentores de uma esperança pueril de que tudo daria certo para todos e a vida era para ser vivida, não compreendida. No lapso de um pós-crepúsculo às margens do "laguinho", num raro silêncio entre risos, tilintar de copos e efusividades extravagantes próprias do entusiasmo etílico-juvenil, subitamente nos calamos, inebriados pelo som que ressoava do único luxo que dispúnhamos naquele alojamento improvisado, um nostálgico toca-fitas: Era a música "Dreamer", do Supertramp, que mais tarde, ao traduzi-la, descobri o tanto que havia em comum com o momento que vivíamos e sobre um pouco do que ainda iríamos sentir décadas depois, ao rememorarmos o que fomos em paradoxo ao que nos transformamos. "......

Paladina Alvorada

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"Você tem que viver antes que morra jovem", disse o vulto ao adolescente que vagava perdido pela planície. "Mas se eu morrer logo, não irei sofrer menos?", respondeu o infante, com uma serenidade própria daqueles que, por não terem esperança de mais nada de bom, encaram a finitude como dádiva, em vez de ameaça.  _Até que vivas, e dê a si a oportunidade de dizer que as batalhas valeram a pena, senão pelo resultado, ao menos pela virtude em lutar por uma causa, como poderá dizer que tudo terá sido em vão? _Se o idealismo é mero pretexto ao sofrimento, e se o prêmio de uma pendenga impossível de vencer é o fado da derrota, de que vale o sangue derramado por um herói vencido? _O fulgor de quem enfrenta monstros sem a garantia da vitória, mas com certeza da justeza de seu propósito, será sempre um farol a sinalizar aos perdidos a direção de seus anseios por justiça.  _Mas de que valerá para mim a morte como pretexto a muitos outros que se encherão de brios e ousarão se e...

Flora humana

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Pessoas há como plantas: Algumas, decorativas e inertes, como samambaias; Outras, traiçoeiras como plantas carnívoras; Também há as rosas, com beleza e espinhos; As trepadeiras, que escalam obstáculos, sempre buscando os píncaros de seus limites; As epífitas, que florescem em seguras reentrâncias; As urtigas, que provocam irritação quando tocadas; Ou as parasitas, que sugam a essência de seus hospedeiros. À parte como se mostram ou o que se tornam, todas foram um dia sementes, promessas de viço, beleza ou finalidade e mesmo o determinismo específico de suas naturezas não é capaz de excluir de suas existências um imponderável espontâneo, que só se compreende quando notado na complexidade de seu macrocosmo. Produtos do meio, mas também entes em busca de sua completude, no rumo da seta do tempo, tão fractais em sua existência e tão óbvios no desfecho de sua decrepitude.

Páscoa

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E lá estavam, parentes e amigos, acomodados à grande mesa da sala de estar, imersos em acaloradas conversas cruzadas numa manhã de domingo, em tempos idos que hoje só existem na memória. O alarido das crianças que brincavam no quintal se somava ao chiado da panela de pressão no fogão, enquanto os carrilhões ribombavam nos alto-falantes das torres da Matriz, dando toques de algazarra àquela reunião de almas entusiasmadas. O clímax do evento ocorreu quando o casal de anfitriões, investido do carisma que cabelos brancos e hospitalidade lhes concedia, adentrou o recinto com suas roupas de missa, sorrisos largos nos rostos vincados e uma simpatia desbragada que somente os detentores do amor incondicional, dado e recebido, são capazes de emanar. De súbito, as crianças agora corriam pela casa, com as bochechas e mãozinhas sujas de chocolate, numa perseguição caótica que só fazia sentido a quem permitia que a alegria em estado puro norteasse suas motivações de anjos tornados gente, por obra da...

Imponderância

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Que meu silêncio ribombe em significado;  Que minha inércia seja fértil à transformação;  Que persista o essencial no âmago do caos;  Que o destino certo não sucumba à calmaria e que eu tenha maturidade para não culpar os ventos quando escolher adentrar as tempestades.

Alienação

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Durante uma visita recebida, eu e Jair assistíamos a um telejornal, quando as imagens mostraram a chegada de tonéis de combustível para permitir o funcionamento das incubadoras da UTI neonatal de um hospital sob cerco em Gaza. O indivíduo prontamente se indignou, espumando numa profusão de perdigotos: _Desde quando as incubadoras de hospital funcionam com combustível? Isso aí é para os terroristas fazerem bombas para jogar nos soldados israelenses. Palestinos malditos! Israel tem mais é que bombardear mesmo! Respirei fundo e respondi pausadamente, de maneira didática, tirando paciência não sei de onde: _Jair, as incubadoras da UTI neonatal de lá funcionam a eletricidade, que é fornecida por geradores alimentados por combustível, sabia?  Enquanto eu explicava o óbvio ao fanático ignorante, as imagens começaram a mostrar dezenas de recém-nascidos acomodados em colchões no hospital quase em ruínas, à espera do retorno do funcionamento dos geradores, para finalmente serem reconduzidos ...

Fratricídio (Haicai 4)

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Olhou pra cima Bombas e fogo no céu O amor morreu

Indiferença

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O novelo da vida se desfia em nós Que prendem na garganta o grito da revolta Como êmbolo contido, prestes a explodir Sob a placidez aparente da repulsa contida. A indiferença perscruta sob afetos forçados Naturalizando absurdos, negando a empatia Desviando o olhar, imerso em fúteis razões  Transbordando em fel, crispando mãos atadas. O amor recusado, em ressentimento se torna E a afeição fenece, em desdém e indiferença Quando o egoísmo se impõe, galhardo e vil Impondo às gentes o jugo da não-existência. Eles sempre estiveram ali, você que não os viu E quando neles tropeçou, a cegueira se desfez em asco Quebrando pontes, no afã de cavar abismos Para evitar o desconforto de se ver no outro. O pão que falta, o teto de nuvens, o chão duro como abrigo Ou a riqueza acumulada gerando desperdício Nada disso nos define como maus ou virtuosos Pois é em tudo que deixaremos de ser que o porvir nos igualará.

Sinestesia

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Nas contradições dos meus sentidos embargados Cores vibram, em trilhas de odores táteis Num turbilhão de sensações em vórtex urdidas, Onde o claro-escuro se rende ao psicodélico. Sob o véu da insanidade se oculta a razão, Agonizando em deleite na fronteira da percepção Alucinando em cores, ouvindo sabores Num conluio mágico entre  prazer e emoção. Pelos se eriçam ao tinir do acorde de seu perfume Paisagens se sucedem ao léu do sabor de sua língua Sua tez secreta o cheiro de sua súplica Enquanto perscruto, faminto, o mel de seus recônditos. Sob o ópio dos sentidos, embalamos danças trôpegas, Em idas e vindas, trazendo volúpia e levando êxtase Percorrendo universos rumo ao éden Transcendendo o real, onde o místico viceja. Entregue ao deleite, o real capitula ao onírico  Transmutando em divino a banalidade do fastio Até que cesse a sinestesia, fruto do encanto Para então se tornar amor, muito mais do que lembrança.

Entredentes

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_Maldito mormaço! - rosnou entredentes o sempiterno resmungão, aludindo à tórrida umidade atmosférica a primazia por seus percalços. A ventoinha no painel vibrava inútil, fazendo circular ar-quente no interior do Escort, lançando partículas de poeira nos sulcos faciais do enfadado caixeiro-viajante, que ao se misturar com o suor em profusão de sua testa, desfiava em filetes pelo pescoço, emporcalhando o colarinho branco desabotoado, circundado por uma inacreditável e frouxa gravata amarela com estampas do Bob Esponja. Não bastassem o insuportável calor, o ronco da ventoinha, o cansaço do fim de tarde, um porta-malas repleto de porta-retratos encalhados e a carteira vazia, agora se deparava com o trânsito parado à sua frente, impedindo que acessasse a via principal, no rumo de seu ainda distante recôndito familiar, onde sua mãe aguardava sua chegada para assistirem juntos à novela das sete e ao culto televisivo subsequente, rotina a qual se dedicavam literal e religiosamente. O veículo ...

Estiagem voluntária

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Levantei-me, sedento. E minhas papilas gustativas ressecadas talvez fossem mais responsáveis pelo inopino de meu elevar que meus próprios quadríceps. Munido de meu copo descartável, que por um zelo sustentável já guardava há semanas, adentrei o recinto onde colegas barnabés teciam superficialidades enquanto se esmeravam em cumprir bovinamente atribuições que não lhes competiam por lei nenhuma, mas ainda assim levavam a cabo por uma subserviência estranha ante a estrutura, que mais de três décadas depois, ainda me causava estupor em constatar. Pressionei a torneira do bebedouro inutilmente, pois até o Deserto do Saara possuía mais H²O que o galão posicionado no funil. Inquiri aos colegas se já haviam telefonado ao fornecedor para o devido reabastecimento e fui informado que "fulana de tal", que se encontrava no recinto era a responsável e faria o contato. Menos mal. Afinal de contas havia o bebedouro coletivo no pátio e a satisfação de minha ânsia sedenta era mais questão de m...

Catarse episódica

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A tarde do meio de semana com feriado prolongado era metodicamente desperdiçada com afazeres em série pelo proletariado, como se a expectativa pelas diversas perspectivas do ócio iminente contaminasse tudo com a pressa de terminar logo o que era feito sem o compromisso do esmero na execução, conquanto isso não acelerasse marcha dos ponteiros do relógio de ponto. A atmosfera de uma efeméride nacional de cunho religioso que ocorreria em uma quinta-feira não poupava quaisquer vivalmas. Adeptos do credo em destaque programavam excursões ao centro de devoção na data da comemoração, organizando-se em grandes grupos ou em família, esmerando-se no planejamento, no qual obrigatoriamente constavam lanches, objetos de devoção e é claro, uma merreca para gastar com bugigangas no aflorado comércio que desde milênios exerce simbiose com a fé das multidões. Peregrinos aos milhares arrastavam fatigadas carcaças por dezenas e até centenas de quilômetros, por dias e até semanas nas rodovias lindeiras, d...

O pavão

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Ultimamente meus momentos de folga são tão escassos quanto as esparsas recorrências de amigos das antigas procurando-me para um rolê regado a bate-papo. O que não me pareceu óbvio de início era uma premente necessidade de autoafirmação desse meu parceiro de tempos idos, uma excrescência de carência afetiva que para um quase quinquagenário, soava meio ridícula. Acomodei-me naquele carro de empresa e quase me entorpeci com aquele olor carregado, próprio de fragrâncias espalhadas pelo corpo com o descuido de se exceder em muito a parcimônia. Enquanto tentava ficar sóbrio, num épico embate olfativo com o olorante bodum, ouvia relatos de viagens à Disneyworld, contemplações em consórcios, presentes caros dados a concubinas e uma estranha lealdade canina a quem lhe oprimia mas era "digno de sua consideração" por recompensar-lhe com a oportunidade de ser sempre um escroto exposto às carícias figurativas e quem sabe, até físicas, deste inacreditável puxa-sacos típico. A tentativa de ...